Carlos abriu os olhos bem devagar, olhou seu relógio de cabeceira que ainda marcava exata 8:30. Essa era a hora que deveria estar já no trabalho. Mas Carlos ainda permanecia deitado na cama e com uma enorme vontade de não levantar. Nunca mais. Levantou e foi direto ao banheiro. Urinou e de tanta preguiça não levantou a tampa, sujando toda ela com aquela urina amarela e fedida. Lavou as mãos e jogou água no rosto para tentar despertar. Em vão. Voltou para cama, catou seu telefone na cabeceira que se encontrava ao lado do relógio e ligou para seu chefe avisando que não trabalharia hoje. Seu chefe nada falou. Sabia qual era o estado atual de Carlos. Voltou a dormir e tornou acordar às 13:00. Dessa vez ele deu um pulo da cama. Seu coração batia tão forte que Carlos achou que enfartaria. Seu braço esquerdo não era sentido e uma dor insuportável de estômago fazia Carlos chorar de medo. Correu para o banheiro e sentou no vaso, todo sujo da urina matinal, e eliminou tudo de ruim que permaneceu dentro dele durante toda à noite. Evacuou toda a pizza que havia comido na noite anterior. Carlos suava frio e a dor cada vez mais aumentava. Sem se limpar, Carlos correu para o chuveiro e se encharcou de uma água gelada. Ficou ali, embaixo do chuveiro por mais ou menos uma meia-hora. Sua dor passara e seu braço já respondia seus comandos. Sem se enxugar e pelado, Carlos caminhou até a cozinha para preparar seu café da manhã. Enquanto esquentava o pão com queijo, ligou o rádio que sintonizava uma emissora de notícias. Não! Carlos não queria ouvir mais nada sobre seu trabalho. Queria se desligar. Tudo ainda estava muito fresco em sua memória e na das pessoas. Foi à estante de CDs e catou alguma coisa mais tranqüila. Chegou a pegar um antigo álbum do Elvis, mas logo desistiu após ver um outro álbum que não ouvia fazia anos, lançado há 37 anos atrás. Aquele grupo musical dizia muito para Carlos. Formados por amigos que se encontrava todos os dias para tocar. Carlos sentia muita falta de seus amigos. Os que não saíram da cidade, não o convidava para nada mais. Por medo, por preconceito. Carlos aceitava, mas não compreendia. Colocou o CD no aparelho e voltou para ver seu pão. Estava no ponto. Torrado do jeito que Carlos gostava. Teve preguiça de fazer café, então optou por um suco de laranja. Preparou a mesa e foi buscar o jornal deixado pelo zelador em sua porta. Sentou-se à mesa e enquanto se alimentava, Carlos passeava os olhos pelo jornal. A cada página virada, a dor no estômago aumentava. Não agüentava mais aquela dor e muitas menos as notícias do jornal. Tudo ainda estava muito fresco em sua memória. Terminou de comer e deitou no sofá da sala para degustar seu cigarro matinal enquanto cantarolava as músicas do álbum esquecido, mas do qual Carlos era fã. Seu telefone residencial não parava de tocar, mas ele nunca atendia. Nunca tinha dado o número para ninguém. Carlos já sabia sobre o que era aquela ligação. Não queria atender. Tudo ainda estava muito fresco em sua memória. O cigarro acabou e Carlos colocou uma roupa qualquer para ir à rua comprar mais. Não tinha vontade alguma de sair à rua, mas precisava. Seu vício falava mais alto. Enquanto ele descia a rua todos olhavam para ele com ar de reprovação. Sentia-se mal, mas dizia para si:
- Eles fariam o mesmo no meu lugar.
Mesmo repetindo isso, Carlos sentia-se muito mal por sua atitude. No botequim, Carlos foi mal recebido. Pediu dois maços de seu cigarro favorito e 4 cervejas. Tentou pagar, mas o dono do botequim não quis aceitar aquele dinheiro sujo. Carlos tentou argumentar, mas foi cortado e convidado a se retirar do estabelecimento. Abaixou a cabeça e subiu a rua em passos largos e sem sincronia. Entrou em casa e o som já não tocava mais, porém seus telefones tocavam. Parecia uma sinfonia. Desligou o celular e tirou o residencial do gancho. Não queria falar nada com ninguém. Abriu sua cerveja e acendeu outro cigarro. Colocou o mesmo CD para tocar e tornou a deitar no sofá. O CD ainda tocou mais três vezes enquanto Carlos fumava cigarro e bebia cerveja. Adormeceu no sofá. Acordou muito tempo depois. Já eram 8 da noite e Carlos mais uma vez sentia uma enorme dor no estômago e seu braço dormente. Dessa vez não conseguiu correr para o banheiro e evacuou ali mesmo no sofá. Carlos chorava. Algum tempo depois, Carlos levantou, mas não se direcionou para o banheiro. Olhou sua janela da sala que ficava no décimo andar de um prédio antigo cravado no centro da cidade. A janela parecia chamar Carlos e ele obedecia. Enquanto passava, deixava um rastro fétido. Uma mistura de fezes, cigarro e álcool. Aproximou-se da janela e sentou no “para-peito” da mesma. Não restava alternativa para Carlos a não ser se livrar daquele peso que o corroia por dentro. Respirou fundo, pediu perdão para parentes, amigos e a deus pelo episódio que se envolvera. Se jogou. Enquanto caía, o rádio de algum apartamento anunciava:
- Morador de comunidade invadida pela PM denuncia que o tiro que vitimou menino de 10 anos em favela partiu de um traficante...
Um barulho ensurdecedor atraiu uma multidão para calçada do prédio. Não havia mais tempo.
