Fazia tempo que Antonio não lia mais o jornal como sempre fazia nas manhãs em que ia para o trabalho. Antônio já fora um grande defensor do povo, de suas causas trabalhistas e tudo mais. Tudo que envolvia o povo própriamente dito, lá estava ele. Sempre com sua testa franzida, seus olhos semi-cerrado. Sempre a promulgar sua insatisfação com o poder público. Mas o tempo passou. Antônio já não era mais o mesmo. Corria entre as bocas de seus amigos que antônio tinha virado de direita, que era agora, um capitalista selvagem, mas a verdade é que Antônio desistira de lutar pelo povo pois achava que o povo não queria um defensor e sim um financiador e Antônio estava longe de financiar alguém, aliás estava longe de até financiar ele mesmo. Já beirava seus 40 anos de idade. 40 anos lutando contra o que ele mais temia: Ser do povo. Ser pobre. Para ele a vida tinha sido muito injusta. Tanto tempo brigando por melhoras popular e ele mesmo não usufruia dos resultados. Sentia-se injustiçado. A vida era injusta. O povo era injusto. Acordou um dia para o trabalho e resolveu não ler mais o jornal que todas as manhãs estava em seu quintal jogado pelo entragador. Experimentou uma nova sensação. A sensação de omissão. A sensação de não ter obrigação de se enraivecer por saber que o povo estava sendo lesado. Sentiu-se leve. Era isso que ele precisava. Precisava não saber da nada. Uma semana sem ler jornal e Antônio partiria para mais uma etapa de sua vida: Não assistir mais o noticiário da TV. E conseguiu. Não ligava mais a televisão. Não ouvia mais rádio. Seu tempo agora era usado para ler seus tantos livros que não teve tempo de ler pois a cabeça estava ocupada demais com causas populares. Nem futebol ele assistia mais. Suas conversas nas mesas de bar se resumia à música, livros, contos, filmes e seriados. Mesmo sem alguma noção do que se passava em sua cidade, Antônio ainda sim era uma boa conversa. Sempre com algo novo. Sempre otimista. Não sabia sobre assaltos, sobre mortes e guerras. Não sabia sobre inflação, sobre dívidas externas, sobre aumentos de IPTU, CPMF, IOF e outros impostos. Nem ao menos se importava em saber quem era o Prefeito de sua cidade. Era a vida que ele queria. Seu círculo de amizade mudou. Seus amigos altamente politizados já não serviria mais para ele e vice-versa. Sentia falta, afinal eram seus amigos. Mas era o jeito de evitar o primeiro gole. O primeiro gole de uma imensidão de informações que poderia por tudo a perder. Sua felicidade, seu otimismo, sua sensação de leveza. Era assim que se sentia. Seus amigos faziam falta, mas era para seu próprio bem se afastar. E assim Antônio viveu sua vida. Não olhava nada ao seu redor. Tudo estava bom. Tudo era barato, tudo corria na mais perfeita ordem. A verdade é que Antônio não se tornara um capitalista, um burguês e sim um individuo, parte do povo que ele sempre defendeu.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

3 comentários:
Postar um comentário